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02 janeiro 2024

SEM CULPADOS ?

 

 SEM CULPADOS ?

 

      Ninguém poderia imaginar que um fato dessa natureza aconteceria na casa da família Carvalho e Casé, uma residência centenária com um enorme e belo jardim, cenário de um crime que marcou para sempre a pequena e pacata cidade de Monte Verde.

Era noite de natal, os recém casados, Valdemar e Mocinha transbordavam de paixão, juravam envelhecer juntos, e bastante felizes com a escolha que fizeram, curtiam e queriam compartilhar aquele momento, por isso, resolveram dar uma festa para os amigos se confraternizarem, celebrar o que viviam. Valdemar, o anfitrião, ficou encarregado de convidar os amigos, enquanto a esposa tomava conta da comida e da bebida que seria servida à noite. 

      Os convidados começaram a chegar às 20h, o casal muito receptível, elegantemente os cumprimentavam. Dois garçons  que serviam o pessoal  foram dispensados,  apedido do senhor, Marco Aurélio, um engenheiro elétrico amigo da família que veio passar o natal a  convite   do casal, justificando que todos ali presentes eram  praticamente de casa, não  havia necessidade dos convidados serem servidos, e a  presença de estranhos tirarias o sentido da festa,  que  na ocasião, era  festejar a noite entre amigos, e  mais,  poderiam  interpretar erroneamente as brincadeiras dos colegas, depois  comentarem pelas as ruas da cidade.

     Relembravam os tempos passados, as namoradas, as travessuras da época que eram garotos, estavam felizes, muitas gargalhadas, abraços, elogios à dona da casa, que timidamente agradecia a presença e os elogios. A anfitriã despertava olhares de todos, vestia um longo vestido vermelho com uma vantajosa abertura do lado da pena esquerda, era o deslumbramento. Enquanto uma linda canção da época de suas adolescências, embalava a noite, bebiam excessivamente, alguns já apresentavam os exageros da embriaguez, falavam alto, os abraços se repetiam frequentemente, declarações de amizade verdadeira, a euforia que o álcool provoca antes de levar o bêbedo a dormir.

      Já se passaram das vinte duas horas, quando a campainha toca, Valdemar olha para os convidados como se estivesse procurando um em especial que ainda não tinha chegado, na verdade dois convidados não tinham comparecido à festa do casal. Olha para a porta depois para a esposa e diz:'' é meu amigo de infância, Vicente que mora em Roseiral dos Campos.  A esposa ria com a   alegria do marido ao receber o amigo. Quem é o Vicente? Perguntou, Raquel uma jovem viúva cuja comportamento desregrado contrastava com o meio social que pertencia.  Valdemar, sem dizer uma palavra abraça a esposa, a leva até a porta para juntos receberem o convidado. Mocinha ficou encantada com o amigo do esposo, dirigiram – se os três até a sala onde estavam os convidados, com exceção de Zelito Badaró, um amigo de Mocinha, que ela mesma fez questão de convidar, embora sem aprovação do esposo.

     Dizem que na adolescência, Badaró, como era chamado, vivia fazendo declarações para Mocinha, sem superar a perda da mulher amada para Valdemar preferiu ir embora de Monte Verde, talvez seja essa a razão da rejeição do esposo em convidá-lo. Mas Badaró é apenas um convidado que ainda não tinha comparecido à festa. Voltemos ao amigo do anfitrião, Vicente foi muito bem recepcionado pelo casal, Valdemar, empolgado com o comparecimento do convidado retardatário, sobe aproximadamente cinco degraus da escada que dava acesso aos outros cômodos da casa e chamando a atenção dos presentes, faz um pequeno discurso elogiando-o:

­__Tenham o prazer de conhecer uma das pessoas mais encantadoras que eu conheci, um verdadeiro homem, honesto, um verdadeiro amigo.

Mocinha olhava com encantamento para o rapaz.  As horas passavam, e aproveitavam cada minuto, cantavam acompanhando a música, risadas e no meio da diversão, Mocinha e Vicente trocavam longos olhares, Valdemar percebeu que o amigo fazia a corte a esposa, enciumado pega a mulher pelo braço, a conduz ao quarto do casal, forçosamente a senta na cama e pede que ela desça e peça ao Vicente para se retirar da festa, porque estava sendo inconveniente as atitudes dele, todos os convidados percebiam o desrespeito com aos donos da casa. O inesperado acontece, Mocinha, sempre fez à vontade do marido, agora recusava fazer o que lhe havia pedido. O casal entra em discussão, Valdemar desce a escada transtornado procurando o amigo, Vicente estava sentado no sofá com uma taça de bebida na mão ao lado de uma mulher que sorria deselegante, certamente também tinha excedido na bebida. Aquela cena o deixou mais enciumado, inesperadamente, resolve anunciar o fim da festa, alegando que sua amada esposa não se sentia bem.

      Neste momento um dos convidados, o senhor Severiano Couto, um homem branco, calvo, com uma enorme verruga na orelha, dono da única funerária da cidade, pede atenção dos presentes, e propôs um brinde para agradecer aquele momento e o convite. Valdemar desce dos últimos degraus da escada, aproxima de um dos homens escorado no bar que o serve com uma dose de whisky sem gelo. Após tocarem as taças umas nas outras ergueram, antes de pronunciaram a que brindar, Mocinha aparece, manda parar, e rindo fala que não se faz um brinde sem a dona da casa presente. Bateram palmas, festejaram a recuperação repentina da mulher, e a convidaram para brindarem juntos. O marido insatisfeito com a presença da esposa, já que havia dito que ela não se sentia bem, ficou ali plantado sem nenhuma reação. Vicente muito gentil, como aparentou ser desde a chegada, foi até a escada estendeu a mão, Mocinha elegantemente segura, desce a escada, agradece a gentileza do rapaz que ousa beijar a mão da mulher. Valdemar tremia, o ódio aparecia no olhar que lançava em direção a Vicente.

      Mocinha tinha bebido com excesso e ao vapor do álcool, despudorada dava gargalhadas com qualquer coisa que o galanteador dizia. Valdemar tentava ignorar as atitudes da esposa. Alguns convidados resolveram ir embora, restava apenas os anfitriões, Vicente, o inconveniente, e mais um casal, cujo marido bêbedo não esboçavam nenhuma reação, provavelmente iria dormir em algum lugar da casa. Mocinha aproxima do rapaz sentado no sofá, senta do lado, enquanto o marido conversava com Lia Conceição Couto, esposa do senhor Severiano que parecia está em coma alcoólico, esparramado em um sofá, aquela imagem ridícula negava a condição social que tinha, mas em fim, é compreensível, bêbedo é bêbedo não existe elegância depois de tanto álcool consumido. Mocinha ousa, pega na mão de Vicente carinhosamente, diz:

    __ realmente meu marido tem razão, tu és encantador.

     Em retribuição com muita gentileza e cordialidade, elogia a beleza dela, conclui :

     __ Valdemar é um homem de sorte por ter uma mulher linda e fiel.

      Após ouvir os elogios, a jovem senhora rir, Vicente puxa-a contra o peito e beija. Um beijo tímido, rápido, mas a reação da mulher permitiu imaginar que poderia ir além, aquele momento não terminaria somente com um beijo. Valdemar de costas, continuava a conversar com a jovem senhora que olhava fixamente nos olhos dele como quisesse dizer alguma coisa. Subitamente o marido da senhora Lia acorda e decide ir embora, despede-se dos donos da casa, de Vicente que desejou ao casal um ano próspero. Valdemar acompanha os amigos até a porta, retorna à sala, onde se encontrava a esposa ainda conversando graciosamente de pernas encruzadas com algoz de sua felicidade. Sem que menos esperasse as luzes se apagaram, agora estavam os três naquela escuridão silenciosa.

     A falta de energia durou aproximadamente duas horas, e por volta de cinco horas da manhã, ao nascer do sol, horário que os funcionários da casa começavam a chegar, Dona Gisele, uma senhora, magra, cabelos com corte masculino, empregada da família a muitos anos, entra desesperada gritando, chamando pelo patrão:

    __ Seu Valdemar!

     Dona Gisele   havia encontrado no jardim os corpos despidos de Mocinha e de Vicente com perfurações no tórax. Valdemar estava   no sofá, profundamente ferido, agonizando, ensanguentado, olhou para empregada segurou fortemente a mão dela, e as últimas palavras proferida foi um verso do poeta paraibano, Augusto dos Anjos: '' A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Valdemar deixou a vida tragicamente   sorrindo.

    Sirenes, roncos de motores aproximavam da residência, a polícia tinha sido avisada.

Ao adentrar à residência, o policial certifica dos óbitos, vasculha os outros cômodos da casa, pergunta:

__ Que horas a senhora chegou aqui na casa? Gigi, como era carinhosamente tratado pelos patrões, respondeu:

__ no horário de costume, às cinco horas da manhã. Em seguida, a empregada aproveitando o instante, pergunta:

__ Como a polícia soube do acontecimento?

O Inspetor, sem muita gentileza, responde:

__' um telefonema.

Vira as costa, sai analisando supostamente o local da cena do crime, vai até a porta de saída , observa  o jardim, onde os corpos permaneciam,  levanta a vista, olha  pensativamente para além do muro, volta  à sala,  faz outras perguntas:

__ A senhora suspeita de alguém ? Sabe quem poderia ter feito isso?  Dona Gigi que estava sentada levanta e monossilábica diz:

__Não.

     O Inspetor avista uma enorme roseira que fica próxima a uma cisterna, um reservatório de água, e resolve ver se encontrava pista do assassino ou assassinos, surpreendentemente se depara com um lugar limpo forrado, uma garrafa de whisky vazia e as roupas do casal morto, agacha-se, olha os bolsos, encontra uma passagem de Roseiral dos Campos para Monte Verde e no verso escrito: “Amigos amantes. O policial resmunga baixo:

__Quem seria o assassino?

Continuou fazendo anotações, olha os corpos mais uma vez, chama o colega, manda recolher os corpos, e ironicamente rindo diz: __as mãos que com paixão acariciaram, também com paixão tornaram-se assassinas! Vamos, não há culpados aqui, somente espectros de amantes a observar o último ato da trágica ópera que encenaram.  

                                                                                                              Farias,23/05/ 1994

 

PONTUANDO MINHA LEMBRANÇAS

 PONTUANDO MINHA LEMBRANÇAS

Tudo que esteve conosco durante o nosso tempo, pequeno, mas intenso, continua intacto. Ainda não tive coragem de jogar fora.

Ontem mesmo, estava folheando um livro de poesias do Mário Quintana, e encontrei um bilhete seu, no final dizia assim: “te amo seu chato, você foi a única pessoa que me deu flores”. Fechei o livro com o seu bilhete na mesma página, guardei debaixo da gramática dada de presente a mim, por ti. Pois bem, reafirmo, tudo na nossa virtual casa, está intacto.

As tuas cartas estão guardadas em um grande pote vazio de maionese em cima da geladeira, o velho celular Nokia de lanterninha com todas as suas mensagens é o meu passatempo, revejo-as todas as noites. A nossa música é a canção tocada ao amanhecer, ela traz tua serena e deliciosa presença, suavemente fico a valsar pela sala - dançando, viajando, respirando o perfume que usaste naquele eternizado sim.

Sem nenhuma poeira, as coisas permanecem em seu devido lugar, ao seu gosto, como deixaste, menos o teu retrato, durante o dia deixo emborcado em cima da mesinha de vidro, onde ficava o bonsai comprado naquela lojinha de artigos japonês.Ao lado está a escultura de uma baiana, carinhosamente demos o nome da nossa amiga. 

Peço desculpas por ter escondido quando partiste, teu baby-doll azul desbotado, escolhido para dormir às quintas feiras. Querida, até hoje nunca entendi o porquê das quintas feiras, só sei que toda quinta feira você aparece em meus sonhos vestido no teu baby-doll azul desbotado, fazendo pose. 

O antialérgico que esqueceste na bancada da televisão, vence próximo ano. Ah! Como gostaria que as minhas lembranças também vencessem próximo ano, mas elas não têm prazos.   Meu peito ainda vive secretamente à procura do teu.

As madrugadas chuvosas!? Além de me fazerem tremer de frio, trazem a lembrança do clarear dos relâmpagos que passavam pelas venezianas das janelas, você apavorada, tão indefesa me abraçava, propositalmente entrelaçava suas longas pernas brancas nas minhas. 

Sei que viajas por essas estradas secretas, nesse labirinto onde se esconde os nossos segredos, sobretudo aqueles proibidos. Às escondidas, vives, de vez enquanto, os que estão guardados no subterrâneo do teu ser.  Dizem que os olhos são o espelho da alma, quem olhar nos teus olhos verá todas as cenas vividas, como foi intensa, desejosa e sem medidas se entregava a mim. Sou capaz de apostar que já te escutaram baixinho sussurrar meu nome enquanto dormias. Não duvide, fazias isso com frequência.

Recordo tua cara assustada, olhando teu vestido longo preto e branco que a corrente da motocicleta cortou quando passávamos do lado da segunda igreja do nosso bairro. Meu amor, foi muito hilário, mas também sensual, percebi que nunca tinha visto pernas tão brancas e tão lindas! Santa corrente, poderia ter arrancado o vestido todo, não havia ninguém na rua àquela hora.  E o luau que fizemos?  Fizeste eu roubar as flores de um jardim para enfeitar o ambiente e criar uma atmosfera lasciva. Foi bom, muito bom, digo melhor, foi extasiante! Você e eu ouvindo nossas canções, longe de todas as convenções sociais nos entregávamos sem virtude, sem pudor sem nenhuma preocupação em ferir tua decência. Nada era tão intenso quanto aquele momento.

       São pequenos detalhes inesquecíveis como estes, capazes de tornarem o nosso passado, um presente. Por mais que queiramos construir um novo, jamais será igual, construímos uma casa no abstrato com portas para serem abertas somente por nós.  Não penses que sou um saudosista ou que ainda..., seria um grande engano, mas é porque tem hora que me dar uma vontade de dizer que tudo com você foi mais.     

                                                                                                              Farias, 12/06/2015

SEMPRE A CHAMEI DE MADAME BOVARY

 

SEMPRE A CHAMEI DE MADAME BOVARY


      No acostamento da deserta estrada de sentido oposto ao pôr do sol, cuja localidade não posso aqui revelar, tivemos o nosso último encontro. Aquele lugar tornou-se uma espécie de santuário, lá está escrito em uma grande pedra, teu nome e o meu dentro de um mal desenhado coração. Ali, te vi pela última vez com sorriso e a cara de quem nunca disse não para mim. Como testemunha, somente o retrovisor interno do teu carro, a espelhar para todos os ângulos a volúpia desenfreada, tal qual uma jovem loba faminta, insaciável devorando a presa. Descontrolada, indefesa em meus braços, entregando – se por inteira ao momento, jugava- me teu dono.

      Essa confusão louca de desejos, vontades, afugentavam qualquer resquício de pudor que ainda pudesse ter. As nossas roupas eram arrancadas, jogadas para o banco de trás. Amantes viçosos que éramos, nada mais no mundo importava além de estarmos juntos. Mesmo de maneira pagã, para os olhos dos conservadores, havia pureza em tudo que fazíamos e como fazíamos. Aquela noite, Bovary, certamente marcariam as nossas vidas.
      Nos instantes de tréguas, ligavas a luz do teto. Igual a um escultor contemplando sua arte, eu completava tua beleza nua. Enquanto beijava o rosto, acariciando seus longos e cheirosos cabelos confessava baixinho: ó querida Bovary tu és para mim única no mundo, teu cheiro delicado, marcante, atraente, lembra-me os perfumes das rosas silvestres que brotam nos campos.  Atenta a cada palavra que eu dizia, os olhos brilhavam de felicidade, trocávamos carícias, segredos, fetiches, ingenuamente descrevias com riquezas de detalhes o nervosismo da primeira vez.

     De repente uma estrela passou riscando o céu, por alguns minutos ficamos a olhar através do para-brisa, a imensidão do universo, o brilho das estrelas. Encostando a cabeça no meu ombro, pedes para eu contar mais uma vez a história de Vênus, a trágica, mitológica narrativa de amor. Emocionada com o que estávamos vivendo, consciente que ali iniciava o fim, aproximas, colas as mãos ao meu rosto, olhas nos meus olhos, encosta o nariz no meu, obstinadamente olhava com tanta ternura que por alguns instantes ficamos imóveis até resolver falar: “SEMPRE QUIZ SER O TE DO EU TE AMO”. Claro que não tinha originalidade na frase, já ouvi antes, mas achei verdadeira, e inocente a forma como falaste.

     Pode até ser bobagem, afinal quem nunca disse frases bobas de amor? Já disse o poeta, todas as cartas de amor são bobas, então, porque censurar uma frase boba de amor, dita em voz, lágrimas e desespero!?Suavemente estendes as pernas, colocas os pés sobre o painel, quão à vontade estavas, não se preocupaste em vestir a roupa ou cobrir partes que viesses a te incomodar ser vistas. Olhando para fora, enxugando o rosto, começas a conversar sem parar, eu escutava respeitosamente tudo que vinhas de ti, pois eras importante.

     Ouvimos músicas, as mesmas que dançávamos coladinhos nas tertúlias que os amigos de escola faziam em suas casas, mostrei a foto que tiramos junto de um Papai Noel, esquisito, barriga negativa, e os músculos tudo em cima.

Deixemos a figura do “bom velhinho” só para data dedicada a ele. Enfim, tardio, mas chegou o sono, dormimos, quando acordamos, o sol despontava no horizonte, majestoso, forte, amarelo ouro.

    Saímos, com as nossas roupas forramos o chão, sentamos juntinhos, encostamos na lateral do carro, ficamos a apreciar a beleza, o espetáculo da força da natureza. Em silêncio suportava ver o sol, também como eu, acariciar, aquecer teu corpo, tão somente meu. Depois daquele entorpecido nascer do sol do dia 20 de abril do tempestuoso ano que vivi, nunca mais a vi, ou ouvir falar de ti. Por onde andas, querida Bovary.

                                                                                                              Farias, 28/03/2004

UMA PINTURA DA NATUREZA.

 

UMA PINTURA DA NATUREZA.

 

    Há muito tempo, confesso, você não estava entre as coisas mais lembradas no meu dia a dia, porém em toda história de amor existem os pequenos detalhes que nos tornam únicos um para o outro, então fica difícil, quase impossível não recordar de vez enquanto suas manias, a roupa que gostava de vestir para dormir, os dias que dormia sem roupa, a maneira de sentar, uma cicatriz, uma marca qualquer. Não me diga, por favor que não recorda! Pois quem diz não lembrar de um amor ou algo especial vivido com alguém também especial, é porque mente, ou sofre da perda das memórias proibidas.

    Ontem no final da tarde enquanto passeava no calçadão da avenida, logo aqui pertinho de onde a gente mora, passou por mim uma mulher não mais bonita nem menos elegante que você. Por esse motivo e outro que direi mais adiante, me chamou atenção. Olhei sem pretensão alguma, e percebi uma pinta escura ou sinal como chamam popularmente, um pouco acima do joelho dela. Embora semelhante a que você tem, não mostrava a mesma beleza, por isso, certamente, desviei o olhar daquelas pernas tão bonitas e apressadas. No entanto desde o bendito instante tirar-lhe da cabeça está trabalhoso. Até tento, mas... As nossas doces lembranças, guardadas, ou melhor trancadas na secreta gaveta da nossa consciência, libertaram – se, ainda mais sugestivas. E como sou destinado aos prazeres, me vejo preso a essas vontades cada vez mais. Passo horas revivendo o tempo que acariciava com as pontas dos dedos essa marca de nascença, assim você a chamava.

     A hora do seu banho! Extasiante, eu ficava deitado imaginando a água do chuveiro batendo em sua cabeça, descendo tomando todo o corpo, banhando seu ventre que a natureza pintou. Ah! Inveja da água do banho de todo dia  que banha  e refrescar a sua manchinha escura. A perda dos prazeres que tudo isso me dava, reconheço, mexeu profundamente comigo, depois que foi embora mulher, fiquei muitos anos com uma imagem sua em minha mente! Agora, 3:45h da madrugada, sem pedir permissão vou aqui reviver mais uma vez: fazia muito calor naquela tarde, após o banho resolveu voluntariosamente deitar no chão, igualzinha como veio ao mundo, um travesseiro amarelo com estampa de um cacto acomodava a cabeça. Eu ali sentado, escorado na parede contemplando aquela pintura da natureza. Pensando o que seria mais belo, você que foi forjada nos braços do amor? Ou a pintinha escura do lado esquerdo abaixo do seu umbigo? Cansada a visão de tanto fixamente olhar, pedia licença e por amor as artes, deitava ao seu lado, desfrutávamos daqueles momentos maravilhosamente necessários a nossa vida.

        Eu amava tudo em você, ainda que, a sua manchinha preta fosse apenas um detalhe, para mim era uma intervenção artística da natureza nesse monumento cheio de curvas e ondulações. Imaginá-la sem ela, era uma coisa irreal. Por fim, agradecemos querida amiga, a natureza divinamente complacente conosco, pois deixou a região do seu ventre mais bela, por que pôs sua manchinha preta no lugar onde, somente eu, seu único amor, podia ver. 

                                                                                                               Farias 12/01/2012

O PARQUE DE DIVERSÕES

 

O PARQUE DE DIVERSÕES

 

      Ontem fui àquele parque de diversões que íamos na adolescência, encostei-me na grade do carrossel, entretido olhava as luzes coloridas, as crianças se divertindo felizes, sorrindo despretensiosas. O deslumbre foi tão grande que acabei passando as folhas do  meu diário secreto que guardo em mim, e folheio quando estou com saudade e muito, muito precisado de ti. Continuei volteando pelo Parque, fui à roda gigante, lá, revivi nós dois em um casal de namorado que estavam trocando carícias, pareciam tão apaixonados! Fiquei comovido! A cena fez-me cantarolar em pensamento uma canção do passado.                    

     Pensei, se ela estivesse aqui, iria ficar surpresa, parece que nada mudou, o pipoqueiro é o mesmo, agora já com cabelos brancos, ele ficou olhando como se estivesse querendo me reconhecer, ou se perguntando porque a menina dos cabelos dourados e cacheados, não estava comigo ali, o que teria acontecido? Caminhei mais um pouco parei na cabine de som onde pedíamos músicas e oferecíamos as paqueras presentes em alguma parte do Parque.  Coincidência ou não estava tocando Wish  yuo   were   here , sabes que temos uma relação especial com esta canção,  foi a trilha sonora do nosso encontro na casa de tua tia. Estávamos sozinhos e apaixonados, tudo convencionalmente indecentes, para nós era divino e belo. Olhavas, dizias a sorrir timidamente que a única forma em que nos encontrávamos mais próximo da pureza era na nudez, as roupas encobriam não só nossas partes íntimas, mas também o caráter, encobria a hipocrisia e a vaidade soberba.

     Após  vê-la filosofar, descer a minha bermuda, nos entregamos as mais indecentes formas de amar. Enquanto permanecia parado por alguns segundos, contorcia-te, o corpo deslizava sobre o meu pondo-se em movimento crescente, convulsivamente numa fusão escaldante nossos corpos banhados de suor tornavam um só. Sentia invadir-te involuntariamente, teu coração batia acelerado, tuas veias estavam mais acentuadas, com uma força excessiva cravavas teus finos e delicados dedos nas minhas costas. Depois de deleitar-se, suavemente separa, deita do lado, olha ternamente, sorri sem acreditar no que havia acontecido. 

       Nunca esqueci o dia do teu gozo pleno, nem da importância da nudez para ti. Talvez seja por isso que insistias tanto para estarmos nus sempre que estávamos a sós. Era a mais graciosa das criaturas. Cheguei a pensar no amor como algo exclusivamente nosso, e o que sentíamos era infinitamente maior que qualquer coisa. Que decepção! Na primavera daquele mesmo ano, sofri a mais profunda dor, meus dias passaram a ser triste, as noites solitárias e melancólicas como as de um detento. Via desesperado tua pureza se dissipar, entregava-se aos prazeres nunca vividos.

      Cada dia uma aventura. Tu que fostes minha, agora estavas entregues a devassidão. Ao passo que aquilo me torturava eu a amava incondicionalmente, imaginar outras mãos tocar teu corpo era dolorido, angustiante, matava-meO meu ser ingênuo, apaixonado transformava-se em um libertino incorrigível, passei a acompanhá-la em suas andanças. Contigo, por ti, mergulhei em um universo de vícios, prazeres sem regra, se é que existem regras para os prazeres. Frequentávamos os piores lugares, onde também estavam as piores companhias, muitas vezes dormíamos à margens de estradas depois de tantas noites exageradamente vividas, nos perdíamos no enlace dos prazeres provocados pelo sexo. 

      Enfim, depois da conta, vem a cobrança, às vezes um pouco atrasada, mas vem. A minha veio guiando um velho Opala vermelho SS, por causa dele foi desfeita a nossa gostosa e delirante parceria. O atropelamento, pôs-me em coma por alguns dias. Não lembro por qual motivo estávamos naquela estrada, essa é a melhor parte de tudo, não lembrar. A única lembrança que tenho era que naquela noite, eu seria posto à prova, falavas isso, incisivamente ao vapor do álcool: “esta noite vais me provar”. Acredito que sentiria medo se soubesse, pois as aventuras estavam ganhando proporções gigantescas. Tinhas um fascínio por tudo que era perigoso.

       Negar que tenho saudades? Claro que tenho. No entanto se por ventura o destino mais uma vez cruzar nossos caminhos, te chamarei para ouvir, Wish   yuo   were  here. Desta vez trocaremos aquelas substâncias por um gelado e saboroso refresco. Falarei do tempo do Parque de diversões, por que de tudo que vi e vivi contigo, essa é a lembrança mais bela, embora tua maneira extravagante de viver ainda me fascina. 

                                                                                                              Farias 28/03/2003.

A MULHER DO CARPINTEIRO

 

A MULHER DO CARPINTEIRO

 

       Sentada na calçada, numa velha cadeira com assento de couro, vestida em um vestidinho de chita com umas pregas na cintura destacando o quadril. Os seios exuberantes saltavam ao decote, uma fivela em forma de flor enfeitava os negros cabelos. Vaidosa, colocava uma base no rosto deixando rósea a face, o forte cheiro de leite de rosas, sentia quem passasse próximo. Rosa guardava a beleza rustica regada por uma falta de recursos que, se os tivessem, não haveria criatura mais bela na terra. Sempre ao cair do sol presenciava esta cena, ela sentadinha com as mãos no colo, evitava qualquer possibilidade de visão privilegiada. Você entende não é ? Ansiosa ficava um bom tempo à espera do humilde carpinteiro retornando do trabalho. As nossas residências ficavam em um vilarejo a pouco mais de dois quilômetros da pequena cidade onde trabalhava o marido.

      Diante da falta de recurso, dinheiro poderia ser o bem maior para seu mundo, no entanto, nada mais dava satisfação à doce camponês, a certeza de ter todos os dias, a volta do seu carpinteiro, esposo amado. Quando chegava, antes de entrar em casa, já na calçada, abraçava a esposa, passava a mão no cabelo e dizia: nada neste mundo é mais bonito do que a alegria nos olhos teus. Envaidecida com elogio do marido, colocava os cabelos para frente, timidamente sorria.

       Aquela jovem senhora chamava muito atenção, além da beleza rustica, tinha uma sensualidade tão natural, chegava ser despretensiosa. Certa vez, estive a observar, quando varria a calçada, o vai e vem dos braços varrendo, fazia ela requebrar sem querer, não imagina como aquilo era lindo, divinamente voluntariosa. Tê-la tornou-se uma questão de honra. Eu queria fazê-la minha, repetia aquilo cotidianamente, feito um monge tibetano repetindo um mantra. Junho se aproximava, no sertão havendo inverno, não há lugar melhor de se festejar o São João. Fogueiras, milho assado, pamonha, sanfoneiro e o arrasta pés à noite toda no terreiro de terra batida. Aquele ano foi razoável, não foi um dos melhores, mas fiz de tudo para lá em casa, fazer o nosso São João, afinal não podíamos fazer essa desfeita com o santo. São João merecia a festa, e eu queria Rosinha, isso já era motivo de sobra para festejar.

      Finalmente, aconteceu a festa, lembra da brincadeira se comprometendo com o santo? Aquelas em que duas pessoas, uma fica de um lado da fogueira e a outra pessoa fica do outro lado, ambas estendem as mãos pegando uma na outra, dependendo do compromisso, diz: são João disse e são Pedro confirmou para..., pois é, fizemos a brincadeira no terreiro, enquanto o marido aproveitava os quitutes e uma forte caipirinha, peguei na mão de Rosinha, corremos para a fogueira começamos o ritual: São João disse e São Pedro confirmou, e antes que ela falasse, me pronunciei logo, para eu ser seu marido que são João mandou. Ela olhou, sorriu, apertou a mão, deu as costas e saiu. Rosa estava muito bonita! Aliás, era bonita, encantadora. Mas naquela noite, ela estava mais graciosa, vestia um vestido branco de alça com a barra acima do joelho, calçava uma sandalinha rasteira, duas tranças nos cabelos, ninguém via tristeza ou sofrimento, ela transpirava a ingênua sensualidade das mocinhas do sertão. Rosa, era a bela flor que não parecia ser nativa do lugar.

        Por fim tenho que confessar, não a tive como mulher, isso foi frustrante, nem como amiga, o que nunca cogitei, ainda assim, aquela noite permanece em minha mente. Anos depois de ter ido embora, soube da sua viuvez, agora vivia amasiada com um comerciante da cidade, bem mais velho que ela. Quando lá vou visitar a parentada, coloco uma cadeira com o assento de couro na calçada, passo horas revivendo aquela noite. Chego a desenhar o corpo de rosinha no ar, e antes que se dissolva as curvas imaginarias, beijo a mão. Ah! Vontade de ter arrancado o vestido branco de alça com a barra acima do joelho que Rosinha vestia, mas era muito direita para tanto despautério. 

                                                                                                            Farias. 12/01/ 2008.

O VELHO CAJUEIRO.

 

  VELHO CAJUEIRO.

     Foi exatamente neste lugar, embaixo desta árvore que te vi sem a parte de cima da roupa pela primeira vez. Os seios volumosos, tão desejosos. Delicadamente tentei tocá-los, mais delicada ainda sorrindo tentou esconder juntando os braços. Éramos dois jovens, querendo descobrir o mundo e acabamos nos descobrindo amantes.

    Todas as tardes lembras? Marcávamos nos encontrarmos embaixo do nosso pé de caju. Acredito que este cajueiro nasceu com este propósito, acolher, testemunhar a nossa ingênua e intensa paixão. Ah, meu velho cajueiro, tua sombra encobria as mais extravagantes cenas de amor. Não imagina quanta saudade! Tinha mandado um recado por um moleque, e ela não aparecia, cheguei a pensar que não viria ao meu encontro, tamanho foi a demora. Quando a vejo, me surpreendo, estava linda, continuar com dezoito anos.

    Perguntei se poderia dar um abraço. Incisivamente falaste:

    __não.

    Pedi desculpas me justificando, que o fato de estar com ela naquele lugar, debaixo do cajueiro, vendo as folhas balançando de um lado para o outro, valsando ao som do canto dos pássaros, onde tivemos demorados beijos, abraços… tinha me deixado comovido, confuso. 

    Finalmente, comovida também, decide ceder, mas com restrição, deixou-me abraça-la, sem beijos, pedindo para não apertar tanto, tivesse cuidado com a mão para que não colocasse onde pudesse constrangê-la. Distraído desci a mão, bravamente, perguntou:

__está louco?

 Respondi, possivelmente! Se desejá-la é estar louco. Pois bem, conheceste a origem da minha loucura, você. Sorriu discretamente, me chamou de mentiroso. Enquanto descia o zíper do vestido, passei a conversar despretensiosamente sobre a festa da padroeira da cidade, mês passado, e que estava linda naquele vestido, fiz um daqueles elogios surrados que as mulheres estão cansadas de ouvir, e as deixam chateadas, por isso não vou ter a audácia de repetir aqui. Enfim depois de descido zíper, deixa o vestido cair livremente. Essa foi a melhor visão que tive, olhei vagarosamente, tocando a face, a mesma ternura no olhar, os lábios, pareciam nunca ter tocados outros lábios. Só após o meu delicioso delírio, deitamos como sempre fizemos ali. Desta vez enquanto acariciava seus negros e longos cabelos perguntei o que teria acontecido se eu não tivesse ido embora.

     Antes de tudo, quero que  tu saibas verdade da qual vou te falar. Sinto-me culpado por esse pequeno mundo do qual pertencíamos, ter desmoronado, quando soubeste, lembro com muita tristeza, que eu iria embora. Vi seus lacrimosos e aflitos olhos, querendo dizer algo, talvez pedir para não ir. Pois, saibas agora, portanto, aquela noite não consegui dormir, pensando na ternura do seu olhar, na sua inocente sensualidade, e no amor divinamente nosso que darias a outro, certamente, não por ser uma moça leviana, dada aos prazeres, mas porque vivíamos a efervescência hormonal que a natureza nos proporcionava e nessa fase, querida, somos como um corcel selvagem, não há quem consiga se conter.

   Às vezes trago à memória as horas que ficamos aqui deitados se tocando, explorando, tentando conhecer o infinito caminho da arte de amar. Só depois do majestoso sol se preparar para ser consumido pela eterna senhora de luto, íamos embora. Ah! Querida, não sabes o peso da culpa que carrego por ter deixado para trás aquele doce encanto que vivíamos. Hoje 20 anos depois, estamos aqui para agradecer a este centenário senhor por continuar sendo o abrigo do nosso amor, e guardião deste segredo. A proposito o homem sentado na mesa ao teu lado na festa, é seu marido?

Olhou envergonhada pela pergunta, de cabeça baixa respondeu:

__ Sim, é meu marido, um grande homem, foi levar as crianças para escola. 

                                                                                                            Farias 20 / 06 / 2009